- A BYD reportou lucro líquido do primeiro semestre de 2026 abaixo das expectativas dos analistas, o que derrubou as ações na sexta-feira, apesar de um desempenho mais forte no segundo trimestre.
- O lucro líquido do segundo trimestre subiu cerca de 12% na comparação anual, mas a intensa guerra de preços no mercado doméstico chinês de veículos elétricos comprimiu as margens.
- As vendas no exterior continuaram crescendo em ritmo de dois dígitos, compensando parcialmente o menor poder de precificação no mercado interno.
- A diretoria sinalizou pressão contínua sobre preços na China e afirmou que defenderá participação de mercado por meio de cortes de custos e lançamento de novos modelos.
- A empresa manteve sua meta de entregas para o ano inteiro, mas analistas alertaram que a recuperação das margens pode ser mais lenta do que se esperava.
Lucro sobe, mas fica abaixo da meta
As ações da BYD caíram na negociação em Hong Kong na sexta-feira, depois que a montadora divulgou resultados do primeiro semestre de 2026 abaixo das estimativas de consenso. A empresa reportou lucro líquido de aproximadamente 16,8 bilhões de yuans (US$ 2,35 bilhões) nos seis meses encerrados em 30 de junho, alta de cerca de 9% ante o ano anterior, mas abaixo da média de 17,5 bilhões de yuans projetada por analistas compilada pelos principais provedores de dados financeiros. A receita do período subiu 18%, para 301,2 bilhões de yuans, impulsionada por entregas recordes de 1,98 milhão de veículos globalmente.
A frustração das expectativas foi atribuída em grande parte à forte escalada da concorrência de preços no mercado chinês de veículos de nova energia, onde a BYD cortou repetidamente os preços de seus modelos mais vendidos para se defender de rivais como Geely, Changan e uma onda de novos entrantes apoiados por empresas de tecnologia. Os preços médios de venda no mercado doméstico caíram cerca de 6% na comparação anual no primeiro semestre, segundo divulgações da empresa, enquanto os custos das baterias recuaram apenas moderadamente. Esse aperto pressionou a margem bruta para 19,4%, ante 21,8% no mesmo período do ano passado.
Segundo trimestre mostra alguma resiliência
Olhando apenas para o segundo trimestre, o cenário foi um pouco mais animador. O lucro líquido ficou em 9,4 bilhões de yuans, alta de 12% na comparação anual e de 27% na sequencial, ajudado por uma recuperação nas entregas e uma mudança favorável no mix em direção a modelos mais caros, como as marcas Denza e Yangwang. A receita trimestral atingiu 162,5 bilhões de yuans, um recorde para a empresa, com embarques ao exterior chegando a 210 mil unidades — alta de 34% ante o mesmo trimestre do ano anterior.
A expansão internacional continua sendo um pilar central da estratégia da BYD. A empresa afirmou que agora vende veículos em mais de 90 países e está ampliando a produção em novas fábricas na Tailândia, no Brasil e na Hungria. As exportações representaram cerca de 14% das vendas totais no primeiro semestre, ante 10% um ano antes. No entanto, a diretoria reconheceu que as barreiras tarifárias na União Europeia e nos Estados Unidos continuam limitando o potencial de crescimento, e que a montagem local será essencial para contornar essas restrições.
Guerra de preços se intensifica
O cenário competitivo na China não dá sinais de trégua. Em julho, a BYD lançou uma nova versão de entrada de seu popular sedã Seal a um preço cerca de 15% abaixo do modelo básico anterior, provocando cortes imediatos de preços de vários rivais. Dados do setor da China Passenger Car Association mostram que os preços médios de transação de veículos elétricos no mercado doméstico caíram mais 3% em julho, a nona queda mensal consecutiva. Analistas de várias grandes corretoras reduziram suas projeções de margem para o ano inteiro da BYD em 50 a 100 pontos-base após os resultados.
A diretoria adotou um tom confiante na teleconferência de resultados, reiterando a meta de entregas de 4,5 milhões a 5 milhões de veículos no ano e apontando para um pipeline de novos modelos programados para o segundo semestre, incluindo um sedã Han renovado e um SUV compacto da série Ocean. Os executivos também enfatizaram os esforços contínuos de redução de custos, incluindo a integração vertical da produção de baterias e o design de chips internos, que, segundo eles, devem ajudar a proteger a lucratividade ao longo do tempo.
Apesar dessas garantias, os investidores seguem cautelosos. A ação fechou em queda de 4,2% na sexta-feira, elevando o recuo no acumulado do ano para cerca de 11%, com desempenho inferior ao do índice Hang Seng Tech. Alguns gestores de fundos argumentam que o mercado está precificando um aperto prolongado de margens, enquanto outros veem a avaliação atual — cerca de 18 vezes o lucro projetado — como razoável, dado o porte da empresa e a opcionalidade de crescimento no exterior. Por ora, o consenso pende para a cautela até que haja evidências mais claras de que a pressão sobre preços no mercado doméstico está se estabilizando.
Olhando adiante, a BYD enfrenta um delicado ato de equilíbrio. Precisa defender sua posição dominante na China, onde detém cerca de um terço do mercado de veículos plug-in, enquanto investe pesadamente em capacidade no exterior e em tecnologias de próxima geração, como baterias de estado sólido. A posição de caixa da empresa segue forte, em 92 bilhões de yuans, e ela gerou fluxo de caixa livre positivo no primeiro semestre, o que lhe dá espaço de manobra. Mas com a concorrência se intensificando e a demanda do consumidor na China mostrando sinais de saturação, o caminho para uma recuperação sustentada das margens está longe de ser certo.






