Pressão das Stablecoins Sobre Moedas Locais É Real, Constata Banco da Coreia
Stablecoins atreladas ao dólar, como a Tether ($USDT), podem pressionar para baixo o valor de moedas de mercados emergentes, de acordo com um estudo do Banco da Coreia (BOK) publicado em 2026. A pesquisa, que analisou dados de negociação da Binance, encontrou um padrão claro: quando traders migram para pares de stablecoins contra moedas locais, essas moedas tendem a se enfraquecer.
O mecanismo é direto. Formadores de mercado em exchanges como a Binance frequentemente mantêm estoques de stablecoins e moedas locais para facilitar as negociações. Quando a demanda por stablecoins aumenta — digamos, como porto seguro durante estresse de mercado — esses formadores de mercado precisam reequilibrar suas posições. Esse reequilíbrio geralmente significa vender a moeda local, exercendo pressão de baixa sobre sua taxa de câmbio.
Como os Dados de Negociação da Binance Revelam a Ligação com a Depreciação
O estudo do BOK focou em moedas pareadas na Binance, que incluem pares de negociação com stablecoins para o won coreano, o real brasileiro e a lira turca, entre outros. Os pesquisadores correlacionaram a pressão de compra nesses pares com a depreciação subsequente da moeda local. A correlação se manteve mesmo após controlar outros fatores, como diferenciais de taxa de juros e fluxos de capital.
Especificamente, o estudo descobriu que para cada aumento de 1% na pressão líquida de compra de stablecoins contra uma moeda local, essa moeda se depreciou aproximadamente 0,2% nas semanas seguintes. Embora isso possa parecer pequeno, acumula-se ao longo do tempo. Para países com moedas já frágeis, saídas sustentadas de stablecoins podem exacerbar pressões inflacionárias e complicar a política monetária.
O interesse do Banco da Coreia não é acadêmico. A Coreia do Sul é um dos mercados de criptomoedas mais ativos do mundo, com o won sendo frequentemente negociado contra a Tether e a USD Coin ($USDC) em exchanges globais. O BOK tem monitorado ativos digitais há anos, e este estudo soma-se às crescentes preocupações de que stablecoins possam minar a estabilidade financeira em economias emergentes.
Por Que os Formadores de Mercado Amplificam o Efeito das Stablecoins
O estudo destaca o papel dos formadores de mercado como amplificadores. Quando a demanda por stablecoins dispara, os formadores de mercado na Binance precisam ajustar seu estoque. Eles normalmente fazem isso vendendo a moeda local que detêm e comprando mais stablecoins, o que adiciona pressão de venda ao mercado de câmbio. Por outro lado, quando a demanda por stablecoins cai, eles podem recomprar moedas locais, fornecendo algum suporte.
Essa dinâmica é especialmente pronunciada em mercados finos. Moedas como o peso argentino ou a naira nigeriana têm liquidez limitada, então mesmo fluxos moderados de stablecoins podem mover a taxa de câmbio de forma perceptível. Os dados do BOK mostram que o efeito é mais forte para moedas menores, confirmando que a liquidez é um fator-chave.
Reguladores têm notado isso. Em 2025, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) pediu padrões globais para a supervisão de stablecoins, e o Banco de Compensações Internacionais (BIS) alertou sobre os riscos das stablecoins para mercados emergentes. O estudo do BOK fornece evidências empíricas que apoiam esses alertas.
Contexto de Mercado: Oferta de Stablecoins em Máximas Históricas
O mercado de stablecoins cresceu dramaticamente nos últimos anos. Em agosto de 2026, a capitalização total de mercado das stablecoins atreladas ao dólar ultrapassou US$ 230 bilhões, acima dos cerca de US$ 160 bilhões no início de 2025. A Tether sozinha responde por aproximadamente 70% dessa oferta, com USDC e outros emissores compondo o restante.
Esse crescimento foi alimentado pela demanda por negociação de criptomoedas, remessas e como proteção contra a volatilidade das moedas locais. Mas o estudo do BOK sugere que a própria característica que torna as stablecoins atraentes — sua atrelagem ao dólar — pode se tornar um canal para a substituição de moeda que desestabiliza sistemas monetários locais.
O Bitcoin ($BTC) e outras criptomoedas são frequentemente usados como ativo-base para negociações com stablecoins, o que significa que oscilações no mercado cripto podem afetar indiretamente os mercados de câmbio. Por exemplo, quando os preços do Bitcoin caem bruscamente, os traders frequentemente migram para stablecoins, o que pode desencadear a mesma dinâmica de depreciação.
O Que Observar: Resposta Política do BOK e Regulamentações de Stablecoins
O Banco da Coreia ainda não propôs regras específicas com base neste estudo, mas é provável que ele influencie futuras discussões políticas. A Coreia do Sul vem endurecendo suas regulamentações de criptomoedas desde a implementação da Lei de Transações Financeiras Especiais em 2021, e essa nova evidência pode impulsionar uma supervisão mais rigorosa dos pares de negociação com stablecoins.
Investidores e formuladores de políticas devem observar duas coisas. Primeiro, se o BOK introduzirá medidas para monitorar ou limitar os fluxos de stablecoins em exchanges locais. Segundo, se outros bancos centrais de mercados emergentes seguirão o exemplo — particularmente em países onde a adoção de criptomoedas é alta, como Brasil, Turquia e Nigéria.
O número-chave a acompanhar é a pressão líquida de compra de stablecoins na Binance para o won e outras moedas de mercados emergentes. Se essa pressão continuar a subir, espere mais pressões de depreciação. Por outro lado, se os reguladores conseguirem conter a demanda especulativa, o efeito pode desaparecer. A próxima reunião de política monetária do BOK está agendada para outubro de 2026, e qualquer comentário sobre stablecoins lá pode sinalizar uma mudança.






